Gestão de passivos: estratégia, equilíbrio e competitividade no mercado corporativo
À medida que o ambiente de crédito brasileiro se torna mais restritivo e os custos de capital seguem pressionados, Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro, demonstra que a gestão de passivos deixou de ser uma função estritamente operacional das áreas financeiras para se converter em uma alavanca estratégica de competitividade corporativa. Empresas que administram seus passivos com rigor técnico e visão de longo prazo constroem uma estrutura de capital mais resiliente, capaz de suportar ciclos adversos sem comprometer a continuidade operacional.
Em junho de 2026, o cenário macroeconômico impõe desafios concretos a essa gestão. Com a taxa Selic mantida em patamar elevado e o mercado de crédito corporativo registrando contração nos volumes de concessão, empresas de todos os portes precisam rever a composição de seus passivos, alongar prazos, reduzir concentração em credores únicos e diversificar as fontes de financiamento. A gestão de passivos eficiente, nesse contexto, é o que separa organizações que atravessam o ciclo com solidez daquelas que acumulam fragilidades silenciosas até o ponto de ruptura. Ao longo deste conteúdo, veremos como essa disciplina se estrutura na prática e quais são seus principais determinantes de resultado.
O que compõe a estrutura de passivos de uma empresa?
A estrutura de passivos de uma organização vai muito além das dívidas bancárias. Inclui obrigações fiscais, trabalhistas e previdenciárias, compromissos com fornecedores, passivos contingentes oriundos de litígios em andamento, debêntures emitidas no mercado de capitais, operações de crédito rural e agroindustrial, além de instrumentos híbridos como as notas comerciais e os certificados de recebíveis. Cada categoria responde a uma lógica própria de custo, prazo e prioridade de pagamento em situações de estresse.
Na concepção de Felipe Rassi, mapear com precisão a composição dos passivos é o ponto de partida obrigatório de qualquer processo de reestruturação financeira bem conduzido. Organizações que chegam a situações de dificuldade sem um inventário claro de suas obrigações tendem a tomar decisões reativas e fragmentadas, quando o momento exigiria exatamente o oposto: visão sistêmica e priorização criteriosa. O passivo mal compreendido é, quase sempre, o passivo que surpreende negativamente.
Alongamento de dívida e renegociação como ferramentas de equilíbrio
Entre as principais ferramentas disponíveis para a gestão ativa de passivos, o alongamento do perfil de dívida ocupa posição central. Converter obrigações de curto prazo em compromissos de médio e longo prazo reduz a pressão imediata sobre o caixa e cria espaço para que a empresa recupere sua capacidade de geração de receita sem a urgência de liquidações forçadas de ativos.

Felipe Rassi
Conforme ressalta o especialista Felipe Rassi, o momento ideal para conduzir uma renegociação de passivos raramente coincide com a crise já instalada. Credores estão mais receptivos a alongamentos e ajustes de condições quando o devedor ainda apresenta capacidade de pagamento e demonstra proatividade na gestão de suas obrigações. Esperar o vencimento para então iniciar a negociação reduz significativamente o poder de barganha da empresa e estreita as alternativas disponíveis. A antecipação, nesse sentido, é um ativo tão valioso quanto qualquer garantia real.
Passivos contingentes e o risco invisível nos balanços corporativos
Uma das dimensões mais negligenciadas na gestão de passivos corporativos é a dos passivos contingentes. Litígios trabalhistas, autuações fiscais, ações cíveis e disputas contratuais compõem um universo de obrigações potenciais que, embora não apareçam como dívida explícita no balanço, podem materializar-se de forma abrupta e comprometer seriamente a estrutura financeira de uma organização.
Sob a perspectiva de Felipe Rassi, a due diligence financeira conduzida em processos de aquisição de créditos estressados frequentemente revela que passivos contingentes não provisionados adequadamente foram determinantes para a deterioração da situação financeira do devedor. Empresas que subestimam sistematicamente o risco de suas contingências acabam construindo uma falsa percepção de solidez que se desfaz no momento em que as decisões judiciais desfavoráveis começam a transitar em julgado e a exigir desembolsos não planejados.
Diversificação de fontes de financiamento e gestão proativa do custo de capital
A dependência excessiva de uma única fonte de financiamento é um dos riscos estruturais mais comuns observados em empresas de médio porte no Brasil. Organizações que concentram seus passivos em linhas bancárias de curto prazo ficam expostas a interrupções abruptas de crédito quando o relacionamento com a instituição financeira se deteriora ou quando o banco revisita seus limites setoriais em momentos de estresse.
A diversificação das fontes de financiamento, por meio de emissões no mercado de capitais, operações estruturadas com FIDCs, uso de instrumentos de crédito rural para empresas do agronegócio ou captações junto a fundos de crédito privado, distribui o risco de refinanciamento e reduz a vulnerabilidade da empresa a decisões unilaterais de credores. Como pondera o especialista Felipe Rassi, a construção de uma estrutura de passivos diversificada é um processo que demanda tempo e relacionamento prévio com diferentes agentes do mercado, o que reforça, uma vez mais, a importância de agir antes que a necessidade se torne urgente. Empresas que chegam ao mercado de capitais apenas em situação de aperto raramente obtêm as condições que obteriam em um momento de maior equilíbrio financeiro.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez







