Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues
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A meta era reduzir a mortalidade por câncer de mama todo ano, e o Brasil caminha na direção contrária

Em 2021, a Organização Mundial da Saúde estabeleceu uma meta global clara: reduzir a mortalidade por câncer de mama em 2,5% ao ano entre 2020 e 2040, uma trajetória que países como Estados Unidos e Reino Unido já vinham conseguindo sustentar havia décadas. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues observa que o Brasil caminha justamente na direção oposta a essa meta, com estudos recentes apontando tendência de aumento, e não de queda, na taxa de mortalidade pela doença em boa parte do território nacional.

Esse contraste entre a meta internacional e a realidade brasileira levanta uma pergunta importante: o que exatamente faz a mortalidade cair em alguns lugares e continuar subindo em outros, mesmo diante de tecnologia de diagnóstico e tratamento amplamente disponível em ambos os contextos? Entender os fatores por trás dessa divergência e como eles se distribuem de forma desigual dentro do próprio Brasil ajuda a explicar por que a queda de mortalidade não é apenas uma questão de tempo, mas de escolhas estruturais concretas.

O que realmente reduz a mortalidade por câncer de mama: o diagnóstico precoce ou o tratamento?

Um estudo americano que analisou dados nacionais entre 2000 e 2017 conseguiu separar estatisticamente a contribuição de cada fator: nesse período, a sobrevida em dez anos livre de recorrência subiu de 82% para 87%, e o ganho atribuído especificamente ao rastreamento representou um aumento de 13 pontos percentuais na redução de mortalidade para doença em estágio inicial. Isso significa que diagnóstico precoce e avanços terapêuticos caminham juntos, mas de forma complementar, e não intercambiável: um não substitui o papel do outro na equação final de sobrevida.

Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, esse dado é importante porque muitas vezes o debate público simplifica a questão como se apenas melhores remédios explicassem toda a melhora observada em países desenvolvidos. Para ele, sem diagnóstico em estágio inicial, mesmo o tratamento mais avançado disponível perde grande parte de sua eficácia, já que muitas terapias modernas funcionam melhor justamente quando aplicadas a tumores menores e menos disseminados.

Por que a mortalidade cresce em algumas regiões do Brasil enquanto cai em outras?

Estudos brasileiros recentes que analisaram a tendência de mortalidade por câncer de mama ao longo de quase duas décadas encontraram um padrão geográfico marcante: enquanto as regiões Sul e Sudeste registraram redução consistente da mortalidade, Norte e Nordeste apresentaram tendência de aumento no mesmo período. Essa divisão reproduz, quase espelhadamente, o mapa de acesso a rastreamento, diagnóstico e tratamento oportuno já conhecido em outras análises sobre desigualdade regional em saúde no país.

Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues

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Nesse contexto, o Dr. Vinicius Rodrigues nota que esse padrão prova uma questão: a mortalidade não é um destino biológico fixo, mas o resultado direto de decisões estruturais sobre onde investir em cobertura de rastreamento, capacitação profissional e agilidade de acesso ao tratamento. Ele reforça que, nas regiões onde a mortalidade cai, geralmente também está presente maior cobertura de rastreamento mamográfico e menor tempo entre diagnóstico e início do tratamento.

Por que a meta da OMS parece tão distante da realidade brasileira atual?

Cumprir uma redução de 2,5% ao ano exige que o sistema de saúde consiga, de forma sustentada, ampliar a cobertura de rastreamento, reduzir o tempo entre diagnóstico e tratamento e garantir acesso equânime às terapias mais eficazes disponíveis, três frentes que exigem investimento coordenado e contínuo. No Brasil, cada uma dessas frentes enfrenta obstáculos distintos: cobertura de rastreamento ainda distante do ideal, filas de espera para confirmação diagnóstica e tratamento, e disparidade relevante entre o que está disponível no sistema público e na saúde suplementar.

Para o ex-secretário de Saúde, Dr. Vinicius Rodrigues, a meta da OMS deveria funcionar como referência concreta de planejamento, e não apenas como aspiração distante. Ele defende que metas nacionais de redução de mortalidade, com indicadores específicos por região, ajudariam a direcionar investimento público para as áreas onde a tendência atual está mais distante do desejável, em vez de tratar o problema de forma genérica e uniforme para todo o território nacional.

O que pode reverter essa tendência de aumento em determinadas regiões do país?

Reduzir o tempo entre a suspeita de câncer e o início efetivo do tratamento é uma das intervenções com melhor custo-benefício disponível, já que atrasos nessa etapa anulam parte importante do ganho obtido com diagnóstico precoce. Ampliar a cobertura de rastreamento nas regiões onde a mortalidade está subindo, combinada com investimento em capacitação de profissionais para interpretação de exames e conduta clínica adequada, tende a produzir impacto mais rápido do que apenas aguardar a chegada de novas tecnologias de tratamento.

O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que reverter essa tendência exige tratar a mortalidade regionalizada como indicador de gestão, acompanhado de perto, e não apenas como estatística divulgada anualmente sem consequência prática direta para o planejamento em saúde. Para ele, cada ponto percentual de diferença nessa curva representa vidas concretas, o que torna a questão urgente demais para ser tratada apenas como debate acadêmico.

A comparação entre a meta global da OMS e a realidade brasileira mostra que reduzir mortalidade por câncer de mama não é apenas uma questão de tempo ou de esperar novas descobertas científicas, mas de sustentar, ano após ano, investimento coordenado em rastreamento, agilidade diagnóstica e acesso equânime ao tratamento. Ignorar essa combinação é aceitar, na prática, que algumas regiões do país continuem se distanciando cada vez mais da meta internacional.

Reverter esse cenário depende de decisões concretas de política pública, mas também de conscientização individual sobre a importância de manter o rastreamento em dia e buscar avaliação médica sem demora diante de qualquer sinal suspeito, já que cada elo dessa cadeia, do diagnóstico ao tratamento, contribui para a mesma meta final de reduzir mortes evitáveis.

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