Por que elogiar o esforço dos filhos faz diferença na formação de valores?
Elogiar os filhos é um gesto natural de carinho, mas a forma como esse reconhecimento é feito pode ter efeitos inesperados. Na visão de Alfredo Moreira Filho, empresário cuja família se fundamenta em valores éticos e morais, a maneira como os pais reagem às conquistas e aos erros das crianças ajuda a definir como elas vão lidar, no futuro, com desafios, fracassos e com a própria honestidade.
Pesquisas da psicologia do desenvolvimento mostram que elogiar o esforço, e não apenas o talento, influencia a persistência e até a sinceridade das crianças. Os estudos também indicam que a reação dos adultos diante do fracasso pesa tanto quanto o elogio. Entenda, a seguir, o que dizem essas pesquisas e como aplicá-las no dia a dia.
O experimento que mudou a forma de ver o elogio
Um dos estudos mais conhecidos sobre o tema foi conduzido pelas psicólogas Claudia Mueller e Carol Dweck, com crianças em idade escolar nos Estados Unidos. Depois de resolverem uma série de problemas, parte dos participantes foi elogiada pela inteligência, com frases como “você é muito esperto”, enquanto outra parte foi elogiada pelo esforço, com frases como “você se dedicou bastante”.
Os resultados chamaram atenção. As crianças elogiadas pela inteligência passaram a escolher tarefas mais fáceis, para não arriscar a imagem de inteligentes, e demonstraram menos prazer quando enfrentaram problemas difíceis. Mais surpreendente ainda: quando precisaram relatar seus resultados a outras crianças, quase 40% delas exageraram as próprias notas, contra pouco mais de 10% entre as que foram elogiadas pelo esforço. Como pontua Alfredo Moreira, o estudo mostra que um elogio aparentemente inofensivo pode estimular, sem querer, a tentação de esconder falhas.
Mentalidade fixa e mentalidade de crescimento
A partir desses e de outros experimentos, Carol Dweck, professora da Universidade Stanford, desenvolveu os conceitos de mentalidade fixa e mentalidade de crescimento. Na mentalidade fixa, a pessoa acredita que inteligência e talento são características imutáveis; por isso, cada erro parece uma prova de incapacidade. Na mentalidade de crescimento, as habilidades são vistas como algo que pode ser desenvolvido com dedicação, estratégia e aprendizado.
Crianças com mentalidade de crescimento tendem a encarar o erro como parte do processo e a persistir diante de dificuldades. Esse comportamento tem relação direta com valores como responsabilidade, perseverança e honestidade, já que admitir uma falha deixa de representar uma ameaça. De acordo com Alfredo Moreira Filho, essa forma de enxergar o próprio desenvolvimento é uma base importante para a formação do caráter.

Alfredo Moreira Filho
A reação dos pais diante do fracasso
Pesquisas posteriores, conduzidas por Kyla Haimovitz e Carol Dweck, mostraram que a mentalidade das crianças é influenciada menos pelas crenças dos pais sobre inteligência e mais pela forma como eles reagem aos fracassos dos filhos. Pais que tratam o erro como algo desastroso, demonstrando ansiedade ou decepção excessiva, tendem a transmitir a ideia de que as habilidades são fixas.
Já os pais que encaram o fracasso como oportunidade de aprendizado, perguntando o que pode ser feito de diferente na próxima vez, ajudam a criança a desenvolver uma relação mais saudável com os próprios limites. Sob a perspectiva de Alfredo Moreira, é nesses momentos de dificuldade que os valores familiares são realmente colocados à prova.
Como elogiar de forma construtiva?
Algumas atitudes práticas ajudam a aplicar essas descobertas. Elogios específicos, que destacam a estratégia usada, a dedicação ou a melhoria em relação ao desempenho anterior, são mais úteis do que comentários genéricos sobre talento. Também vale reconhecer a honestidade quando a criança admite um erro, reforçando que a sinceridade tem valor.
É importante, porém, manter expectativas realistas. Estudos em larga escala mostram que intervenções baseadas na mentalidade de crescimento têm efeitos positivos, mas moderados, e mais visíveis em determinados grupos de estudantes. Além disso, elogiar o esforço não significa ignorar resultados: o ideal é valorizar o processo sem deixar de orientar sobre o que precisa melhorar. Conforme ressalta Alfredo Moreira Filho, o objetivo é formar filhos que aprendam com os próprios erros e não sintam necessidade de escondê-los.







